palavra cardíaca

Feb 28

Feb 26

a história do rosto

salgar a carne

dos olhos

até que se tornem 

água

e apaguem

meu rosto os rastros

deixados à margem

como o mar meus olhos

agarram como

minhas mãos

quando machucamos.

 

(poema de Juliana Brina)

Feb 21

Escrever dá trabalho!

Escrever dá trabalho!

Feb 19

cartas possíveis

Essa mulher não pedirá nada. Ela sairá à rua, o rosto ao vento, e de chuva cobrirá esse rosto, para esconder. Vai ajudar um homem cego a subir no ônibus, e o fará com um gesto simples, mas o homem cego estará tão só, e choverá tanto, e o gesto será tão simples, que, com esse coração tão desamparado e tão só, que é seu único bem nessa noite e nessa chuva, o homem cego vai dizer à mulher, essa mulher que chora em silêncio, escondida pela chuva: “Deus te abençoe” , e ele vai dizer sem saber sequer dessas lágrimas, porque o homem cego não tocou o rosto da mulher que chora - e se tivesse tocado ele saberia, e apenas ele, cego, entre todos os outros, seria o único a saber, com as mãos, como separar, da água doce que o céu derrama, o rio de sal que escorre dessa mulher. Deus te abençoe, ela repetirá para si, muda, e essa mulher, por muito tempo ainda, ou talvez apenas nessa noite, essa mulher usará isso como um amuleto, como faz quando vê um pássaro, ouve uma música num apartamento, uma música antiga, ou uma música que alguém esqueceu, ou quando vê o céu de repente, ou com a bênção de um cego. Essa mulher vai se agarrar a esses amuletos. Ela vai descer no ponto errado, porque está tão escuro aqui, e vai caminhar na chuva e no vento, e vai chegar numa praça e a praça estará cheia. E haverá música nessa praça. Apesar da chuva e do escuro e do vento, haverá gente e música. E o coração da mulher que chora ficará pequeno, mas tão pequeno, e ela vai pensar como é simples a alegria dessa gente, e como é frágil. E de repente um desconhecido vai começar a conversar com a mulher, e ela será obrigada a se desdobrar ao mesmo tempo em três, e absolutamente desgarradas: a mulher que ouve a música, a que responde às perguntas e a mulher com o coração apertado, e todas as três serão de repente apenas essa mulher que chora, e chora invisível. Nessa mulher o coração bate na pele, à superfície, e o riso é solto e forte e faz tremer o corpo, e o chão, e é riso feito de céu e de desespero, e de um vento dentro, porque é sempre mais forte e violento o riso que ninguém sabe, mas que é um riso que crava os dentes na dor feito bicho em sua presa, essa dor que é um cavalo selvagem que a mulher tem que segurar pela rédea, sem ninguém ver. Algumas vezes, a mulher terá vontade de soltar a rédea, mas serão poucas, e então vai se trancar em banheiros públicos, as duas mãos na boca, uma sobre a outra, para segurar a dor do lado de dentro, apenas o sal derramando-se, em silêncio e imóvel. Na maior parte do tempo, porém, ela vai simplesmente rir o seu riso forte e fundo e ninguém vai ver, e nem poderia, e será sempre incomunicável, porque a mulher que chora sabe que toda tristeza, ah, é uma língua estrangeira. Essa mulher que escreve sempre na terceira pessoa, e escreve coisas que as pessoas acham bonito, e acham sem entender. E, no entanto, ela usa palavras tão simples: chuva, vento, música, riso. Por isso, nessa noite, com palavras simples, ela responderá às perguntas do desconhecido, e vai se misturar às perguntas, e depois à música, e depois às pessoas na praça, para sumir. Como o choro sumindo em toda água doce que é do céu que vem, caindo, essa mulher vai conseguir se misturar e sumir. E ninguém verá, no ônibus, quando ela agarrar forte uma mão na outra, debaixo da bolsa, morder o lábio e virar o rosto para a janela - onde haverá, talvez, atrás de um véu de água e de sal, sem ninguém nem ver, e escondido,

o céu um pouco.

Feb 13

abrapira asked: sua poesia chega a doer, de tão linda. parabéns Juliana! um abraço, Abraão

Obrigada! :-)

[video]

Dec 20

exílio

eu colho o que foge

de um rosto

agora

qualquer riso sal uma chama

fogo que carrego

de poema em poema

com a insensatez dos insetos

sem pouso arremeto-me

contra a luz

exausta inútil alheia

desse rosto

agora.

(poema de Juliana Brina)

papel branco

essa mão sobre o meu peito

só pode ser afeto

atravessa com cuidado, amor

esse mar aberto.

(poema de Juliana Brina)

Sep 29

marítima

o que ficou no rosto

sal suor chuva choro

uma onda um mar

passaram

e meus olhos estão rochas

de cristais.

(poema de Juliana Brina)

Sep 08

destroços

um poema sobre o amor

desesperado de quem

nunca

teve amor e não

sabe de onde

arrancá-lo

o poema

sobre o

amor

que circula no

meio de

um diálogo

banal ao

telefone entre as

palavras

espalhado.

(poema de juliana brina)